Michele Iacocca: A trajetória no mundo das letras

Michele Iacocca nasceu na Itália e foi lá que deu início aos estudos de literatura clássica. Sempre se sentiu atraído por qualquer manifestação de arte, como cinema, teatro, literatura, desenho e pintura, bem como pelo humor em geral. Por volta dos vinte anos, depois de rodar um pouco pela Europa, decidiu conhecer o outro lado do mundo e acabou vindo para o Brasil. O escritor e ilustrador fala sobre sua trajetória, suas obras, inspiração e o trabalho desenvolvido pelo PNAE, levando livros para todo o país.

PNAE: Nascido na Itália, porque escolheste o Brasil para viver? Com quantos anos mudou-se para o cá?

Michele Iacocca: Digamos que foi uma coisa meio curiosa. Como escolher e ser escolhido ao mesmo tempo. Em 1962 eu tinha vinte anos e meu pai, com o qual praticamente não convivi, já estava no Brasil desde 1952. Eu trabalhava na época na reforma agrária, num escritório de engenharia e ganhava o equivalente a um professor de escola. Nada mal, considerando a situação da época e a falta de perspectivas, principalmente para os jovens, numa Itália pós-guerra, dilacerada e tentando se reerguer. Muitos jovens emigravam para a Suíça e Alemanha. Só que começou a me dar, de repente, romanticamente mesmo, uma vontade muito grande de sair para o mundo, pensando em fazer isso durante um período de uns dez anos, para depois voltar e assentar. Escolhi primeiro ir para a Nova Zelândia, porque é antípoda da Itália. Fiz a papelada e tudo e até fui aprovado para ir trabalhar numa serraria. Era só esperar a chamada. Por outro lado, meu pai estava aqui e eu podia vir para o Brasil a hora que quisesse, era só fazer o passaporte. Dei um tempo. Se a Nova Zelândia não me chamasse viria para o Brasil. E assim a Nova Zelândia demorou e me perdeu. O resto também correu diferente de como eu tinha pensado já que estou aqui até hoje.

PNAE: Como se deu o início da atividade de escritor?

Michele Iacocca: Eu sempre gostei de escrever. Na Itália já escrevia contos, poesias para as coleguinhas da escola e até paródias de gozação do Hamlet, da Divina Comédia e até, acredite, uma fábula meio sujinha, em latim mesmo, parodiando o Fedro, que se chamava Asinus et leo, o asno e o leão. Tudo para tirar sarro de alguns colegas chatos e até dos professores, que por outro lado gostavam e davam risadas. Já no Brasil a dificuldade com a língua me levou para a linguagem do cartum e da charge. O que facilitou também foi que eu acabei trabalhando como chefe de arte na Editora Abril durante alguns anos e foi nas revistas de lá que comecei a publicar a Eva, na Claudia, assim como uma página na revista Exame. Coisa que de resto continuei fazendo até alguns anos atrás. Ao texto fui chegando à medida que ia conhecendo e acostumando com a língua. De fato, o meu primeiro livro, a Eva, foi um livro desenhado.

PNAE: Em 1973, publicaste seu primeiro livro, chamado Eva, que foi premiado pela crítica e publicado também na Europa. Esse fato foi um marco para sua carreira deslanchar?

Michele Iacocca: Sem dúvida! A Eva para mim foi uma felicidade só. O livro, uma edição de mil exemplares, esgotou em vinte dias. Ganhou o prêmio da crítica como livro do ano, apareceu no festival de Angouleme e ganhou uma reportagem de três páginas numa revista de lá. Foi depois editado em Portugal e na França.

PNAE: O que foi que te motivou a seguir nessa área?

Michele Iacocca: Em 1974 eu saí da editora Abril para trabalhar como freelance, inclusive para a própria Abril. Coisa que fiz até recentemente, publicando charges, ilustrações e cartuns e até desenhando capas, para todas as revistas da Abril como: Cláudia, Veja, Quatro Rodas, Exame, Playboy e outras e, ainda, de outras editoras como: Isto É, Status e até para as “nanicas” como Versus, Movimento, O Bicho, Ovelha Negra etc... Nisso incluindo desenhos, quadrinhos e ilustrações para empresas e agências de publicidade e livros como Vacamundi e o calendário desenhado que fiz para a livraria Cultura durante alguns anos. Quer dizer, o motivo foi a própria época. Os anos setenta, oitenta e o começo dos anos noventa. Anos de contrastes, mudanças. Ditadura de um lado e efervescência cultural de outro. Repressão e vontade de dizer e se manifestar. Até depois, com Sarney e Collor. Tudo mexendo, inclusive a vida e a vontade de ser e de fazer.

PNAE: Quantos livros publicados?

Michele Iacocca: Com certeza mais de cem, entre autoria e coautoria. Agora, se considerar os que eu ilustrei de outros autores entre Ana Maria Machado, Elias José, Tatiana Belinky, Fany Abramovic, Ruth Rocha, Flávia Muniz, Edy Lima e muitos outros, incluindo alguns de Gianni Rodari e mais os muitos didáticos de português, inglês, aritmética e outros, nem sei quantos são. O fato é que nunca contei e nem sei se vou conseguir contar todos. E tem ainda os projetos Raízes e Asas, Amigos da Escola, Ofício do professor, para o Cenpec, Globo e Fundação Vitor Civita. Enfim, mais de quarenta anos de muito e belíssimo trabalho.

PNAE: Com tantos livros publicados, o que você sente quando uma nova obra fica pronta?

Michele Iacocca: A eterna surpresa de quem vê nascer. Coisas que parecem surgir do nada, mas que são a manifestação e a afirmação da própria vida com toda a sua riqueza, experiência, aprendizado e cultura. O ato de criação é o mais bonito dos mistérios.

PNAE: De onde vem a inspiração que o mantém em tamanha conexão com o universo infantil?

Michele Iacocca: Da minha própria infância, claro! Que eu tive a sorte de viver da forma mais completa e livre possível. Nasci numa pequena cidade medieval no sul da Itália e vivi a infância toda entre as ruelas, o rio, as cachoeiras e os campos com pomares e vinhedos. Eu e uma turma de uns vinte moleques que variava dos quatro aos doze ou treze anos de idade. Os maiores ensinando e cuidando dos menores. No verão a gente ficava fora o dia inteiro e os pais nem se preocupavam. Comíamos espigas de trigo, de milho, folhas ou frutas. Construíamos nossos próprios brinquedos. Estimulando nossa inteligência e formando nossa identidade e nossos valores nas brincadeiras e na convivência, quase como filhotes de animais. E isso é o que me conecta e é disso que eu mais gostaria de falar para eles.

PNAE: Qual a dica que você dá para estimular o gosto pela leitura nas crianças?

Michele Iacocca: Olha, ler é um hábito. A dica é para os pais criarem esse hábito em seus filhos. Os professores também são importantes nesse estímulo. Para as crianças, da minha parte, vai mais do que uma dica, um pedido, de todo coração. O livro é a grande mina onde está toda a sua riqueza. Procure no livro! Lá está você, com tudo aquilo que você é. Lá você encontra o que você tem de melhor. Coisas que ficarão com você, no coração e na lembrança e que com certeza te ajudarão, mesmo quando você menos espera. Te ajudarão a crescer, ajudarão sua inteligência e sua capacidade de entender o mundo. Tenha certeza absoluta que a leitura fará de você uma pessoa sempre melhor e mais rica em todos os sentidos. Acredite!

PNAE: O que você ressalta do livro de aventura “A Nuvem Que Não Queria Chover” lançado pela Tribos Editora?

Michele Iacocca: Bem, a Nuvem representa a própria criança com toda a simbologia da própria vida. Com toda sua beleza, curiosidade, aprendizado, descoberta etc... Mas também sua luz e todo o sentido de vida que ela passa. Assim como a Nuvenzinha, é a criança a maior e mais bonita responsável pela alma e pelo futuro do mundo. É ela que ilumina a vida. É ela que vai, como a Nuvenzinha, regar o mundo para torná-lo cada vez mais bonito e luminoso. É isso que eu queria ressaltar. Inclusive porque essa história estava no meu coração antes do que no meu intelecto.

PNAE: Sobre o trabalho desenvolvido pelo PNAE, levando livros para bibliotecas de todo o Brasil, o que você tem a destacar?

Michele Iacocca: Caramba! Eu seria até o carregador e o entregador nessa! Lembram dos monges da idade média? Imaginem o sacrifício que eles faziam para transcrever e armazenar em livros toda a história e a cultura da época! E o que isso representou na história da humanidade. Para mim, o ato de levar e divulgar livros é tão importante e até sagrado, assim como todo o trabalho desses monges. Considerando a época atual é uma das coisas que eu acho das mais importantes para o futuro das novas gerações e para a humanidade em geral. Por favor, nunca parem!

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